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Para minha mãe, Angélica, no seu septuagésimo – quinto aniversário.

 

Sei contar direitinho os passos entre a porta do meu carro e o matagal em declive onde meu filho jaz deitado de costas, as mãos amarradas em frente ao ventre com um nó tão rústico quanto eficaz. A bala, entrando por entre suas sobrancelhas espessas, deixou sua cabeça tão grande como a abóbora da estória da Cinderela com que eu o botava pra dormir; transformou sua face numa maçaroca semelhante ao macarrão à bolonhesa que sempre me pedia pra preparar, e, ao sair pela nuca, levou junto seu cérebro brilhante, que agora está sendo comido por milhares de saúvas, que aproveitam pra entrar e sair de orifícios que parecem um dia ter sido seus olhos, um dia ter sido sua boca.

 

Lembro-me bem do tratamento longo, cansativo, e, por vezes, desesperançado, pra conseguir plantá-lo no ventre dela; da minha alegria quando soube que o tinha conseguido; da minha frustração quando ela deixou a nós dois, sem nenhuma explicação e sem nunca voltar a dar notícias; do meu esforço para mantê-lo, vesti-lo, alimentá-lo educá-lo, completamente só, sem outra renda que a das aulinhas de Geografia para os adolescentes fúteis e arrogantes daquele colégio burguês; de como ele, em lágrimas, estendia os bracinhos pra mim quando eu, à noite, voltava ao quitinete onde o tinha deixado sem lanche, orientado a não gastar luz e sem outra companhia que terríveis bichos-papões e lobos maus.

 

Assim mesmo, conseguia levá-lo aos domingos pra aprender a torcer por meu time e ensinei-lhe suficiente hebraico pra que lesse a torah, ambos os esforços se revelando inúteis, pois ele, de moto proprio se passou pro rival e se converteu ao catolicismo.

 

Devagar, com dificuldade, as coisas foram mudando, até que consegui um salário minimamente decente quando me contrataram no Militar e ainda deram bolsa pra ele. Aí pudemos nos mudar pra um dois quartos e nos dar ao supremo luxo de contratar uma empregada. Ainda me doem na alma os olhos compridos que ele lançava pras guloseimas e brinquedos dos colegas, sempre que me dava a mãozinha para voltarmos juntos, pai e filho, professor e aluno, ao nosso modestíssimo, mas muito sólido lar.

 

Estava entre os melhores do NPOR e falava em cursar Agulhas Negras, prometendo que ia me chamar pra lhe entregar o espadim. Agora não ia cursar mais nada. O que restava de seu rosto lindo e de seu corpo atlético ia era pra debaixo da terra, pros vermes completarem a refeição que as saúvas tinham iniciado. Um dos seus captores, que dele só tinham pra tirar um relógio de camelô, uma carteira quase vazia e um celular velho, e queriam mesmo era o fusquinha que ainda estou pagando pra uma ação, deu com a língua nos dentes e os dois concordaram que não poderiam deixar viva uma testemunha do seu plano de assaltar um posto de gasolina.

 

A minha volta, um burburinho de vozes. A irmãzinha da pastoral dos encarcerados nem se dá ao trabalho de me perguntar se sou cristão e vai logo me dizendo que Jesus me ama e que ele está sentado à direita do Senhor e que perdoar é um ato divino. O advogado dos criminosos, que já foram presos e mandaram me dizer que ele se portou como macho até o fim, fala em impetrar um habeas corpus. Uma assistente social me diz que eles são frutos do sistema e tão vítimas quanto meu filho.

 

Um agente funerário me oferece um féretro digno e barato. Um membro de uma ONG que nunca ouvi falar me acusa de cúmplice por nunca ter procurado me inteirar das reais necessidades da comunidade. Um ativista dos direitos humanos vocifera que a pena de morte é um crime do Estado contra o indivíduo. Não sei de nada disto. Só sei que posso contar os passos entre a porta aberta do meu carro e o cadáver do meu filho. São 11 passos. 11 passos certinhos.

Artista plástico. Teatrólogo. Cineasta. Ficcionista. Historiador. Tradutor.

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